
As máquinas pesadas ainda estavam a sair do porto de abrigo, no seu passo lento, quando eu finalmente percebi o que tinha acontecido. Eram máquinas com pneus maiores do que a altura de três homens, uns em cima dos outros. Vi-as desaparecerem para sul, num comboio lento e ruidoso. Quando voltei a olhar para o mar
— Conseguiram
disse, em voz baixa. Não havia uma única onda. Não havia uma ruga. O mar estava liso, como um tecido azul esticado, engomado três ou quatro vezes de seguida.
— Conseguiram mesmo.
Ainda me era difícil de acreditar, mesmo com a história a mostrar-me tantas vezes que isto era possível. Que era possível uma ideia estúpida como esta não só avançar mas ter o apoio enfurecido de uma vasta maioria da população.
Foi um ano inteiro de obras. Milhares de toneladas de betão fizeram erguer um muro maior do que o promontório, em torno de toda a vila. Milhares e milhares de toneladas de betão despejadas directamente para o Canhão da Nazaré. Sim, mesmo para as profundezas do canhão. Daquele que fora considerado o principal impulsionador da imagem de marca desta vila. Era agora eliminado para sempre — diziam eles.
Nunca se tinha imaginado tal história. Mas a verdade é que as pessoas fartaram-se das ondas. As pessoas fartaram-se do barulho do mar. Políticos, líderes de opinião, jornalistas — todos juntos pelo fim das ondas.
Não era só por estarem cansados do barulho e da agitação das ondas. Já qualquer movimento na água lhes causava repulsa.
De parte a parte, surgiam slogans de campanha: “por uma Nazaré sem ondas”. Cartazes gritavam: “Basta de ondas!”. Aqui mesmo à minha frente, vejo agora um graffiti com palavras de ordem: “Tudo pela Nazaré, nada contra a Nazaré! Abaixo as ondas!”.
Cansados de tanta agitação marítima, as pessoas queriam apenas alguma paz. E mesmo quando um grupo de cidadãos — não mais do que cinco ou seis — chamou especialistas na matéria para demonstrar o que era óbvio — que isto era uma ideia estúpida — ninguém quis ouvir. A sala ficou vazia. As pessoas estavam decididas.
Mesmo aquelas que, à primeira vista, iam ser as mais prejudicadas. Surfistas e pescadores. Juntos, numa causa comum: as ondas do mar são uma aberração e têm de ser eliminadas.
O presidente da Câmara chamou os jornalistas. Ali mesmo na praia, fez a sua conferência de imprensa. Como pano de fundo, as três bandeiras institucionais e o mar da Nazaré: calmo como uma lápide.
— Minhas senhoras e meus senhores, hoje é um dia histórico. Acabaram-se as ondas. Acabou-se o barulho. Acabou-se a desordem. Como podem ver, atrás de mim, não há ondas nem de esquerda, nem de direita. Construímos uma catedral de silêncio. Sem olhar para interesses partidários, unidos pelo bem do concelho, conseguimos.
A multidão que assistia na praia aplaudiu. Os jornalistas acenaram com a cabeça.
Eu perguntava-me quantos dias seriam precisos para que os primeiros peixes começassem a flutuar, com os olhos vidrados. Quanto tempo demorava este mar a ficar sem oxigénio. Quanto tempo demorava a água a ficar podre e o mau cheiro a inundar a costa. Quanto tempo levaria este cheiro a fazer esquecer as “escorrências anómalas” que escandalizaram moradores e turistas. Enfim, quanto tempo seria preciso para que a falta da mistura destas águas, “da esquerda e da direita”, como disse o presidente, quantos dias, quantas semanas, quantos meses seriam necessários para matar o mar.
Fui até à Galé, para beber um copo e tentar esquecer-me desta enorme estupidez. Na esplanada, os mesmos de sempre, erguiam os copos:
— Acabou-se o barulho. Acabou-se a desordem. Agora sim, a nossa terra vai avançar! Um brinde!
Desviei-me dos bêbados. Entrei e pedi uma imperial. Do outro lado da sala, alguém dirige-se a mim
— Olha o gajo! Tu querias era estar aqui a ver o mar a partir tudo, não era?
Eu tentei ignorar. Peguei na minha imperial e fui para o lado oposto da sala.
— Querias arranjar problemas, não era? Mas aqui somos todos pela Nazaré! Somos todos contra as ondas!
Eu não queria entrar em diálogo. Seria uma perda de tempo. Por isso, peguei, uma vez mais, no meu copo e, derrotado, fui bebê-lo sozinho para a praia.
O dia estava quente, coisa estranha para o mês de Novembro, e o sol começava a encaminhar-se para o horizonte. E foi nesse momento que vi os primeiros peixes a emergir, sem vida.
Lá ao fundo, vi um vulto a caminhar na minha direcção. Percebi que era o meu pai
— Estava aqui a ver como é que eles fizeram isto
justificou-se, ele que tinha sido fiscal de obras públicas durante muitos anos.
— Já viste o que estes cabrões fizeram ao mar, pai? Vai acabar por morrer.
— É possível. Mas nunca te esqueças: ainda está por nascer uma obra feita por este bando de incompetentes que não comece rapidamente a abrir rachas; a entrar salitre; os fungos a ganharem caminho. E quando essa fenda na muralha aparecer, é bom que estejas preparado.
Nesse momento, juro que ouvi uma espécie de estalido. Vinha do fundo do mar. Mas posso estar equivocado.

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