Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar

Oh, minha querida e triste Nazaré. Deixaste-te enganar, meu amor.

Eu sei, meu amor. Quiseste fechar os olhos a todo o horror. A verdade era tão pesada, não era? Tão negra, não era? Tão escura.

Não tem mal, Nazaré. Não me olhes com essas lágrimas de tanto mar. Eu percebo-te. Percebo-te tão bem. Quantas vezes não me apetece fazer o mesmo: fechar os olhos com muita força e desejar que tudo passe. Que seja apenas um pesadelo. Puxar o cobertor, tapar-me todo. Adormecer. E esperar que no dia seguinte tudo tenha passado.

Mas sabes, Nazaré, — tu sabes — que já não somos crianças. Nem eu, nem tu. Tu sabes que não olhar para a verdade de frente, que adiar essa verdade, que não olhar para ela com curiosidade e com compreensão — vai sempre trazer-nos dissabores amanhã.

Mas, mesmo assim, deixaste-te enganar, Nazaré. Deixaste-te levar por quem te prometeu fazer uma casa, embora nunca tenha sentido o peso de um tijolo. Deixaste-te levar por quem te prometeu escutar, embora tenha sempre vivido longe, num castelo, afastado de ti. Quiseste ser uma vez mais enganada porque tens muito medo da mudança. Porque tens medo de ser quem tu és. Tens medo que te mostrem tudo aquilo que podes ser.

E por isso foges para casa dos teus pais, corres as cortinas, fechas os estores, trancas a porta à chave e apagas as luzes. Sentes-te melhor neste sítio que conheces bem. Não ousas sair.

Nazaré, preferes adiar a tua vida, preferes ignorar a que sabe o vento que sopra de outros lugares. Recusas-te a conhecer outras pessoas e acabas sempre no mesmo sítio onde começaste: com aqueles que te traíram, com aqueles que te magoaram.

— É preferível assim — dizes-me — porque desta vez vai ser diferente. Ele é diferente. Este é boa pessoa, Samuel. Este não me vai fazer mal. Acredita em mim.

E eu queria gritar muito alto para te explicar que estes são os mesmos, Nazaré, exactamente os mesmos que já te fizeram tanto mal, Nazaré, que já te deixaram tão triste, Nazaré, que já te deixaram tantas cicatrizes, Nazaré.

Mas não o faço. Porque sinto que, por agora, nada do que eu te vá dizer possa mudar alguma coisa. Nada do que eu te disser vai quebrar o feitiço que te foi lançado, uma vez mais.

Querida Nazaré, numa noite escura — que conheces demasiado bem — preferiste ficar. Eu estarei cá para te abraçar, uma vez mais, quando precisares. Eu estarei cá para te secar as lágrimas, para tratar das tuas feridas, para te mostrar aquilo que és capaz. Para te apontar ali para a linha do horizonte e pedir-te que imagines, para além do temporal que lá vem, que tudo é passageiro. Que tudo há-de passar.

Para desejar que não voltes, depois, a repetir o mesmo erro, minha querida Nazaré. Meu amor.

Uma resposta a “Deixaste-te enganar”

  1. que coisa linda ♥️

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