
Quando cheguei, naquela manhã, percebi que este era o sítio certo para mim. Em todas as casas, iguais, os estores para baixo, as portadas cerradas. Os dois únicos cafés que existiam estavam fechados, as cadeiras das esplanadas empilhadas umas nas outras.
Naquele aldeamento turístico, onde as vivendas são todas iguais e as ruas são todas iguais e os passeios são todos iguais, é muito fácil uma pessoa perder-se
— Onde raio estou eu agora
Não há pontos de referência, o primeiro olhar tem dificuldade em perceber as pequenas diferenças: aquela varanda que tem uma portada partida, aquele alpendre que tem um candeeiro feito de palha, ali ao fundo, aquela casa que está mais degradada. Tirando estas pequenas diferenças, é um labirinto onde eu me sinto perdido mas seguro.
Acho que cheguei à rua certa. Dois carros estacionados. Um aqui perto, outro mais além. Naquele, o pó cobre os vidros de tal maneira que é impossível ver o que está lá dentro. Este, reluz, impecavelmente limpo.
Não há sinais de ninguém. Apenas os gatos dominam este território. Numa varanda, sobre as esplanadas cobertas com lonas, dois gatos aproveitam o pouco sol que consegue passar pelas nuvens cinzentas. Um gato desgrenhado sentado no meio da estrada olha para mim. Observando com mais atenção, nos alpendres das casas, gatos pretos, gatos malhados de branco e de preto, gatos cinzentos. Naquela rua contei mais de quarenta.
E eu percebi que este era o sítio certo para mim porque o peso da solidão que se abate cá dentro de mim — que sempre se abateu cá dentro de mim — está agora aqui fora também. Esse peso é tão denso, é tão real que quase consigo tocá-lo. É como se, por fim, o que está cá dentro de mim encontrasse um espelho do lado de fora.
Era de manhã cedo quando cheguei. Achei o número da porta. 32. O portão de ferro estava pintado de azul claro. Estava destrancado e abria sobre um pequeno pátio com alguns arbustos altos e agora sem folhas. Havia umas escadas de tijoleira que davam acesso a um primeiro andar. Afastei os gatos, carreguei a mala de viagem pelas escadas acima. Tinha poucas instruções. Devia procurar a chave debaixo do tapete da entrada. E lá estava ela.
Abri a porta e a casa estava toda embrenhada na escuridão. Todas as portadas estavam fechadas. Cheirava a mofo e a esgoto. Entrei, procurei o interruptor e liguei as luzes. Levei a mala de viagem para dentro e comecei por abrir todas as janelas. A pouca luz que entrou na casa mudou tudo. Agora conseguia ver bem: a cozinha à direita, a sala de estar à esquerda.
A sala de estar tinha uma mesa de jantar, um sofá, uma lareira e um cadeirão
— Óptimo para ler
E, atrás dessa cadeira, uma grande portada que dava para a varanda. Abri-a e dois gatos fizeram questão de demonstrar que a minha presença ali os estava a incomodar. Enxotei-os. Aquele espaço agora era meu. Pelo menos nos próximos três meses. Era isso que tinha ficado combinado.
Mais para o fundo, um quarto. Uma casa de banho. Abri todas as torneiras, descarreguei o autoclismo. O ar começava a renovar-se ali dentro e eu perguntava-me se aquele era o verdadeiro cheiro da nossa ausência, o cheiro que deixávamos para trás quando já não estávamos mais.
Trouxe a mala para o quarto, abri-a. Umas calças de ganga azuis, duas t-shirts, uma camisa, uns calções de banho de uma cor azul muito forte, um casaco e roupa interior. A outra metade da mala estava cheia de livros. Comecei por arrumar a roupa num dos armários e carreguei os livros para a única estante que havia na sala.
Na bolsa de fora da mala, trazia um caderno e quatro canetas de tinta preta. Afinal, era esse o objectivo: escrever tudo. Como um drogado que se encerra na solidão para enfrentar os seus monstros e resistir a essa batalha, que se perde sempre, uma batalha contra a vontade, mais ou menos momentânea, mais ou menos perene, de abandonar um vício. Mas isso não era agora. Agora tinha de me instalar.
Fui espreitar outra vez a varanda, sentir aquela solidão, tão densa. Pela janela via a rua, com as suas casas todas iguais, com estas casas todas tão repetidas, com os gatos espalhados por todos os recantos, com os dois automóveis estacionados. Ninguém.
— É tudo tão estranho, na minha cabeça tenho um peso que me preenche todas as artérias, cá dentro, mas ao mesmo tempo é como se nem sequer fosse eu que estivesse aqui.
Durante muito tempo, esta solidão, este sentimento de profundo desespero, causava-me medo. Ficava esmagado com a forma como ele se revelava nos momentos que menos esperava. Mas, ali, já não podia dizer o mesmo. Estava finalmente a acomodar-me a esta ideia de que o monstro que trago dentro de mim também habita nesta vila, neste mês de Janeiro de 2026.
Percebi que me tinha esquecido da pequena mala onde trazia os meus produtos de higiene e por isso regressei ao carro. Desci as escadas de tijoleira, afastei os mesmos gatos de ainda há pouco e abri o portão de ferro azul. No primeiro andar da casa em frente ao carro sujo de pó, vi um movimento rápido de alguém a fechar as cortinas, como se houvesse uma necessidade súbita de não se ser visto, de se esconder. Nada daquilo me deixou desconfortável. Também eu queria evitar qualquer contacto humano.
Abri a bagageira e retirei o meu nécessaire. Fechei a bagageira, tranquei o carro, virei costas e quando me preparava para subir o primeiro degrau ouço um
— Bom dia!
demasiado alto, impossível de ignorar. Voltei costas para perceber quem me chamava. Muito perto do automóvel, o tal que se encontrava imaculado, um senhor de bigode, muito alto e magro, de chapéu na cabeça e um casaco grená acenava-me
— Bom dia! Sou o vizinho aqui da rua
Eu acenei, fiz o meu melhor sorriso
— Bom dia, vizinho, parece que também vou ser seu vizinho no próximo mês. Queria que ficasse claro que não valia a pena ele investir naquela relação, porque eu estaria só de passagem.
— Um mês inteiro? No inverno? Óptimo! O meu nome é Amável.
Tinha de arranjar uma forma rápida de me escapar daquela conversa de circunstância. Queria estar só, era esse o único objectivo desta minha fuga para este aldeamento deserto e, no entanto, ali estava eu a travar conversa com um velho. Percebendo a minha inquietação e continuando a olhar-me com muito cuidado
— Nós já nos conhecemos, não é?
Ele disse-me isto enquanto sorria
— Não, nunca o vi na vida.
— Conhecemos sim, o senhor já aqui esteve, agora é que me estou a lembrar.
Na varanda da casa em frente ao carro cheio de pó, as cortinas voltaram a mexer-se.
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