
Tenho tanto para te dizer
Eu estou a caminhar no Sítio, na Nazaré, em direcção ao farol, no Forte de São Miguel. Estou sozinho mas existem mais pessoas a caminhar estrada abaixo, no mesmo sentido.
À minha esquerda, um pouco mais à frente, as terras começam a deslizar e a ser engolidas pelo mar. Existem pessoas que estão a tentar lutar pela sua vida, agarram-se ao asfalto da estrada. Há pessoas que caíram e das quais se perdeu o rasto. Não podem ter sobrevivido à queda, isso é claro.
Eu tento desviar-me para a direita, vou passando pelas pessoas assustadas. Não há gritos, nem sequer há um único ruído. Dir-se-ia que aquele desmoronamento iria fazer o barulho de duzentos batalhões a disparar duzentos obuses ao mesmo tempo. Mas há um silêncio abafado. O medo só se consegue perceber pelo rosto das pessoas. Algumas tentam voltar para trás, outras continuam a seguir em frente, mesmo que agora já não se veja o forte nem o farol, mesmo que já não haja sequer caminho para seguir. É como se tivessem de chegar a algum sítio invisível.
Também eu tenho de alcançar um lugar que não é claro para mim. Eu sinto que nos meus pés trago todo um caminho que não pode ser só aquele de que me lembro. Tem de ser muito maior, muito mais antigo. Ao mesmo tempo, sinto que nunca saí deste lugar, nunca consegui sair, mesmo que tentasse, da mesma forma que uma árvore de raízes muito longas, uma figueira, por exemplo, uma árvore de raízes muito fortes, estancadas na terra, unhas e dentes, agarradas à terra, eu a tentar, com toda a minha força, sair desta terra, eu, com toda a minha força, a acreditar que é possível, eu, com toda a minha força, a serrar estas raízes longas, grossas, eu a pensar que consigo, que é possível. Percebo agora — e é tarde — que durante todo este tempo nem sequer me mexi.
Tenho tanto para te dizer
E agora também esta parte do promontório já começou a cair, de forma mais lenta é certo, mas a cair, e com ela pessoas que por lá caminham. Olho para o mar calmo da Praia do Norte. Estou a ver mais de uma centena de pessoas a ser levada pela corrente, sem pressa. Algumas desaparecem logo, outras voltam à superfície, já sem respirarem, para serem arrastadas para o fundo com o passar de uma pequena onda. Não os vejo a tentar lutar pela vida. E nada me leva a querer salvá-los. Nada.
E agora já não estou mais no promontório que deixou de existir. Sem perceber como e também sem me questionar, flutuo agora sobre a água do mar, devagar, em direcção a oeste. O pôr-do-sol está diante de mim, engolido em muito nevoeiro. Olho para o sul e a vila da Nazaré desapareceu. O morro desapareceu, já não há um precipício, já não há uma ânsia de sobre ele saltar. Já não há pessoas, nem casas, nem paredão, nem estindarte. O mar tudo inundou.
Tenho tanto para te dizer e, por isso, olho para as minhas pernas mas o que procuro são raízes. Não encontro nem pernas, nem raízes, nem corpo. Nem memória. O mar engoliu tudo, engoliu-se a si de tanta sede e afundou o céu.

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