Agora, com um pouco mais de tempo, deixem-me relatar aqui o que vi na quarta-feira, às 8 horas da manhã, quando me desloquei da Nazaré para Leiria.
No dia anterior, terça-feira, tinha combinado com uma amiga dar-lhe boleia até ao Hospital São Francisco, em Leiria.
O pior da tempestade tinha terminado por volta das 6 da manhã. Desde as 4 que estávamos sem luz e sem comunicações. A ligação ao mundo exterior fazia-se apenas através de um rádio a pilhas. Nos noticiários, parecia que o que tinha acontecido não passara de uma ocasional chuvinha mais agressiva.
Quando abri a porta para a rua, percebi que o pinhal em frente à minha casa tinha sido completamente arrasado. Pinheiros partidos a meio, outros que simplesmente desapareceram. Árvores tombadas por todo o lado.
No noticiário das 8, na Antena 1, conseguiram estabelecer contacto com a Protecção Civil de Leiria. Os relatos falavam de um cenário de destruição e deixavam um conselho claro: não se desloquem para Leiria a não ser em casos estritamente necessários.
Tal é o desespero no SNS que, nem com a catástrofe diante dos meus olhos, nem com os avisos da Protecção Civil de Leiria, desisti de levar a minha amiga ao hospital em Leiria. Ao ir buscá-la, passei por uma Nazaré de pantanas: o ecoponto junto à minha casa tinha feito um voo de 500 metros; sinais de trânsito dobrados; cabos de electricidade a dançar soltos com o vento; árvores e mais árvores caídas; painéis publicitários no meio da estrada. Areia por todo o lado, caixotes do lixo virados, telhados sem telhas.
Sem comunicações, a minha amiga estava no local certo, à hora certa, assustada, sem saber o que fazer. Decidimos, ainda assim, arrancar para Leiria.
Continuámos a ver a desgraça: soleiras espalhadas pelo chão, vidros partidos, árvores tombadas ou cortadas a meio a bloquear estradas. Apesar de tudo, conseguimos chegar rapidamente a Valado dos Frades. Pelo caminho, o Monte Branco nu, despido de árvores; o monte de São Brás sem a torre de vigia (embora a cruz tenha sobrevivido); e uma parte substancial daquela mancha verde de pinhal reduzida a nada.
Na rotunda do Valado, a estátua do agricultor tinha desaparecido. No parque de merendas, árvores tombadas sobre alguns telheiros das mesas de piquenique. Entrámos na A8 e circulámos sem problemas até à Marinha Grande. Na saída da auto-estrada para a zona industrial, começava a formar-se uma fila muito grande. No sentido inverso, de Leiria para a Nazaré, o trânsito estava completamente parado. Uma fila enorme de camiões encontrava-se bloqueada por um cabo de electricidade que impedia a circulação.
As portagens, essas, continuavam a cobrar e a funcionar de forma perfeitamente normal. Lembro-me de ter pensado: podíamos ser atingidos por um meteorito e a concessionária continuaria a receber dinheiro de quem por ali passasse.
À saída da auto-estrada, vimos uma das entradas do Shopping de Leiria destruída; stands de automóveis sem fachadas ou com enormes buracos nos telhados; cabos e mais cabos de electricidade soltos pelo chão; árvores e mais árvores desmaiadas; estradas completamente bloqueadas.
Conseguimos chegar rapidamente ao hospital, apenas para perceber que — claro — não havia consultas: não havia sistema, não havia electricidade, não havia comunicações. Regressámos à Nazaré. Pelo caminho, vimos o estádio de Leiria destruído. O trânsito começava a intensificar-se. Leiria parecia ter sido atingida por vários obuses ao mesmo tempo.
Regressar pela auto-estrada estava fora de questão. Tentámos a nossa sorte pela estrada nacional. O cenário de destruição continuou, mas agora o que víamos eram as indústrias daquela zona com estragos significativos. Painéis solares projectados por todo o lado.
Chegámos à Marinha Grande e o nosso desconsolo regressou em força. As estradas estavam praticamente todas bloqueadas por árvores tombadas, cabos eléctricos ou postes de iluminação pública. As filas eram longas. Vi o Hotel Cristal muito danificado. Mas pior: vi o Sporting Clube Marinhense completamente destruído.
A fila adensava-se e o que nos valeu foi o conhecimento dos atalhos que a malta da Marinha Grande usa para fugir aos semáforos da estrada principal. Conseguimos chegar à rotunda do Vidreiro por ruas paralelas. Mas daí não conseguimos passar: uma árvore de grande porte bloqueava metade da estrada, mesmo em frente ao Burger King. E aí assistimos a algo impressionante: um cidadão, ao ver o trânsito a acumular-se, decidiu assumir o papel de polícia sinaleiro. Dizia:
“Eu não percebo nada disto, mas vou deixar passar dez carros de cada vez, de um lado e do outro.”
E assim o trânsito fluiu.
Mais à frente, civis com moto-serras cortavam árvores que bloqueavam as estradas. Durante esta parte do percurso não vi um único carro da polícia. Vi várias ambulâncias a passar.
Já perto da zona industrial da Marinha Grande, vimos um camião tombado e, mais uma vez, não conseguimos avançar. O problema repetia-se: árvores tombadas na estrada que ou bloqueavam completamente a passagem ou deixavam apenas uma faixa muito estreita livre.
Mais à frente, dois carros estavam abandonados na berma da estrada — avariados ou com pneus furados. Depois, vimos um carro esmagado por um enorme pinheiro. Não era um carro estacionado; era um carro que tinha sido apanhado em circulação. Não havia ninguém dentro do carro, nem sinais de ferimentos. Tentei ligar para o 112. Nada. Blackout total.
No rádio do automóvel ouvia um responsável dizer que o SIRESP estava a funcionar com normalidade. O que é capaz de ser verdade, uma vez que o normal é não funcionar.
Durante todo o caminho, mais episódios de civismo do povo. Passávamos informação a quem vinha da Nazaré para lá; recebíamos informação de quem vinha de lá para cá. Percebemos que aquela viagem, que em condições normais se faz em 20 minutos, iria durar horas.
Durante todo o trajecto vimos o mesmo rasto de destruição. Chegámos sãos e salvos à Nazaré às 11 horas da manhã.
O sentimento de abandono é generalizado. O povo sabe que só conta consigo próprio.

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