Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar

– O avô distrai o homem e tu vens por aqui, baixas-te ali naquele muro e depois quando me ouvires a falar com ele, saltas o muro e tiras três maçarocas.

Isto era o meu avô a dar-me instruções sobre como roubar maçarocas de milho ao senhor Alfredo. O senhor Alfredo tinha uma pequena plantação de milho na zona dos Caixins, da Nazaré.

O meu coração palpitava. Na minha cabeça eu era a personagem principal dos filmes onde um grupo de ladrões congeminava um plano detalhado para assaltar um banco. Mas melhor do que um grupo altamente profissional de ladrões — eu tinha o meu avô. Melhor do que assaltar um banco — ia “tirar” três maçarocas. E para um miúdo de cinco anos isto era a melhor aventura de sempre.

Fui de cócoras, pezinhos de lã, rente ao muro baixo que delimitava a plantação de milho. Ouvi os passos do meu avô dirigindo-se ao senhor Alfredo.

– Bom dia, Alfredo! Como é que vai isso?
– Olha o Girone!

O nome do meu avô era Jerónimo. Mas raramente a gente comum acertava no nome. Era o Girone.

O senhor Alfredo, que tinha uma enxada na mão, largou-a junto de um poço e dirigiu-se ao meu avô. Eu, atrás do muro, observava tudo.

– Vais lá para o ano?
– A minha mulher está a ficar pior… acho que já não lá pomos mais os pés.

Referiam-se à tradição da Senhora da Vitória. Durante os meses de Abril e Maio a comunidade da Nazaré deslocava-se às Paredes da Vitória e acampavam por lá durante várias semanas. Mas isso é outra história.

O senhor Alfredo era nosso vizinho de acampamento. O estado de saúde da sua esposa agravara-se. Aquele foi mesmo o último ano em que o senhor Alfredo cumpriu a tradição. Poucos meses depois, a mulher morreu e ele nunca mais teve coragem de regressar às Paredes da Vitória.

O meu avô e o senhor Alfredo continuavam a conversar mas eu agora não conseguia ouvir os pormenores. Nem me interessava. Era tempo de eu entrar em acção.

Trepei o muro e, em bicos de pés, uma maçaroca no bolso, dois passos para a direita, duas maçarocas no bolso, mais dois passos para a direita, três maçarocas já cá cantavam. Avistei o meu avô, indiquei-lhe um fixe com o polegar, como quem diz já está!, ele acenou com a cabeça de forma dissimulada, e eu saltei do muro para o chão de terra, levantando muito pó. Fui rente ao muro, quase sem respirar, para não fazer barulho. Mal me afastei um pouco da plantação, corri feito doido até ao Centro de Saúde. Era lá que devia esperar pelo meu avô.

Pareceu-me demorar quinhentos anos, mas o meu avô lá surgiu vindo dos canaviais dos Caixins. Passo lento mas seguro, como se tivesse o mundo controlado nas palmas das mãos.

– Trouxeste três?
– Sim, avô, três maçarocas bem bonitas.
– Isso mesmo!

Fomos caminhando para casa da minha avó Amélia, em direcção ao Bairro dos Pescadores, mas o meu avô tinha ainda mais um plano na cabeça.

– Os marmelos do Laborinho Lúcio já devem estar bons… Vamos lá espreitar.

O truque era o mesmo.

– O avô toca à campainha e tu vais por este muro de lado. Cuidado que ali há um buraco, ouviste?

Eu ouvia tudo, nada me escapava. A encosta era íngreme. O muro era alto. Mas havia ali um monte de terra mais à frente que facilitava a tarefa.

O meu avô tocou à campainha e, passados alguns minutos, o Doutor, muito alto, lá apareceu a abraçá-lo. Para mim, o Doutor era um homem muito misterioso e ele comprava-nos sempre muitos livros em segunda mão. Nas noites quentes de verão, eu e o meu primo vendíamos livros velhos no topo da Avenida Vieira Guimarães. Eu já na altura tinha impressão que o Doutor nos comprava os livros só por pena. Mas comprava. Houve uma noite que levou cinco livros de uma vez e deixou-nos uma pequena fortuna.

– Mil escudos!
– Isso dá quantos rebuçados?
– Mais de cem! Disse o meu primo.

Deixei o Doutor conversar um bocado com o meu avô. A manobra não era tão simples como a das maçarocas. Subi o monte de terra, trepei o muro. Saltei para o quintal do Doutor. Parecia um ninja. O marmeleiro estava carregado de marmelos grandes e muito amarelos e encontrava-se, de forma conveniente, plantado ali mesmo perto. Mas havia um problema: os sacanas dos marmelos estavam presos lá no alto. Eu não chegava aos ramos.

Lá em baixo, estava ao meu avô a conversar com o Doutor, de costas para mim. Eu fiz sinal ao meu avô: esbracejei, encolhi os ombros e apontei lá para cima, para os inalcançáveis marmelos. O meu avô fez um gesto disfarçado com a cara, como quem estava a apontar para o chão do marmeleiro. Quando olhei, lá estavam: para grande sorte minha, oito ou nove grandes marmelos, num montinho, no chão. Mesmo à minha espera.

Peguei neles, fiz uma pequena bolsa com a minha camisola e carreguei-os com cuidado. Trepei o muro, mas… dois marmelos caíram no chão. Fizeram um estrondo. O Doutor vira-se, de repente, na minha direcção e eu só tive tempo de ensaiar uma fuga, saltando para o outro lado do muro. Os marmelos caíram todos pelo chão e foram rolando a uma grande velocidade pela encosta da Pederneira abaixo. O Doutor e o meu avô correram até mim para ver se eu estava bem.

– Aleijaste-te, neto?
– Estás bem, menino? Perguntou o Doutor, aflito.

Eu estava com medo do Doutor. Pensei que ele fosse chamar a polícia. Afinal, ele era o ministro de todos os tribunais. Na minha cabeça, uma vida passada na masmorra era o meu destino mais certo.

Em vez disso, o Doutor estava muito preocupado.

– Magoaste-te? Queres beber um sumo?
– Não, obrigado, Doutor, não me aleijei.

Ele passou-me a mão pelo cabelo e sorriu.

– Tens de ter cuidado, aquele muro ainda é alto!

Desta vez tínhamos escapado. Seguimos com pena suspensa para casa dos meus avós. Eu sentia-me muito envergonhado e triste e por ter falhado o plano. Mas o Doutor deu-nos os marmelos à mesma.

Nessa tarde, a minha avó Amélia fez a melhor marmelada de sempre. O meu avô acendeu o pequeno fogareiro preto. Assou as maçarocas. E comemos aquelas maçarocas assadas com manteiga.

Só muitos anos mais tarde contaram-me que o senhor Alfredo ia espreitando para ver se eu já lhe tinha roubado as maçarocas.

Só muitos anos depois percebi que aquele montinho de marmelos estava ali de propósito para o neto do Jerónimo levar às escondidas. O Doutor divertia-se muito com estas combinações do Girone.

Era tudo um grande jogo inventado por um avô que tinha de entreter um neto. E a Nazaré era o nosso palco.

Doutor, anseio pelo dia em que lhe possa voltar a roubar os marmelos. E desta vez quero convidá-lo a provar a marmelada da minha avó Amélia. Sei que vai apreciar.

One response to “Roubar marmelos ao Laborinho Lúcio”

  1. que delícia de história

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