
Avó, apressa-te. Consegues ouvir o barulho que vem lá de longe? Consegues ver lá ao fundo um movimento cada vez mais definido?
— Ouvem-se os gritos lá fora de gente com muita raiva.
Sim, avó, é uma turba de gente que se movimenta até nós. Já se consegue ver um mancha de gente que continua a adensar-se. Avó, eles estão sedentos de sangue.
— Mas quem são? O que querem?
Avó, apressa-te, eu não sei quem eles são, eles próprios não sabem quem são (não são conhecidos por passar muito tempo a fazer introspecção), mas apressa-te.
— Mas porque gritam?
Não sei, avó, eles também não o saberão, move-os a raiva, a frustração. Move-os, sobretudo a traição. Confiaram, durante muitos anos, nos mesmos. Sentem-se enganados.
— Mas quem é que os enganou e porque é que se viram agora contra nós, neto?
Porque continuam a ser enganados, avó, continuam a ser traídos, mas perdidos na sua cega raiva nem sequer conseguem perceber isso. Avó, tira-o, por favor.
— Sempre o usei. A minha mãe usava. Foi a minha avó que me ensinou este jeito de o pôr na cabeça. A minha avó disse-me que foi a avó dela que também lhe ensinou assim.
Estamos a perder tempo, avó. São cada vez mais, juntam-se uns aos outros, aos magotes. A turba avança para nós, já consigo ver algumas caras conhecidas lá ao longe. Está ali a Laura. E o Luís. E até a nossa prima Fernanda está lá, aos gritos
— A Fernanda? Mas ela também o usava.
Avó, não tentes encontrar lógica, não percas tempo na procura de coerência. Eles estão a aproximar-se. Tira-o, por favor.
— Mas porque é que o meu cachené causa tanta raiva a esta gente, neto?
Não é o teu cachené, querida avó, é a ignorância deles, é a raiva a ferver, num rastilho que foi ateado nesta direcção.
— É apenas um lenço, neto. É um pedaço de algodão.
Foi o que eles encontraram para incendiar esta fogueira, Avó. Eles dizem que querem proibir a ocultação do rosto das mulheres. Dizem que as querem proteger. Dizem que, quem vem para Portugal, tem de ser igual a nós. Avó, tira-o, por favor. Estão a tentar arrombar a nossa porta.
A minha avó olhou para a porta. Olhou para mim e sorriu.
— Neto, não te preocupes. Eu já morri há muitos anos. Eu cá vou manter o meu cachené na cabeça. É negro, como esta noite que agora se põe. Mas tem estes padrões dourados entrelaçados — consegues ver? — são muito finos, como as mãos que se dão e que não se largam nunca. E que reluzem no meio desta noite escura e longa. Lembra-te deste meu lenço, neto.
E não largues nunca essas mãos que se entrelaçam nas tuas.
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